O iceberg voador

Não quero, com as minhas palavras, criar nenhum clima de que atualmente voar é perigoso. Sendo um aficionado pela aviação, pesquiso um pouco sobre o assunto e tenho bastante confiança de que a aviação é um dos transportes mais seguros.

As companhias aéreas do mundo todo registraram um número recorde de passageiros em 2014 – 3,3 bilhões de pessoas em 27 milhões de voos, segundo um relatório da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA). Ocorreram 21 acidentes fatais no ano passado, mas este número é o mais baixo da história em termos de perdas de aeronaves e número total de voos. Equivale a dizer que houve um acidente para 4,4 milhões de voos em 2014. Há 50 anos, o mundo tinha apenas 5% do número de voos que tem hoje, mas quatro vezes mais acidentes. Então, apesar dos acidentes registrados, as viagens aéreas, estatisticamente, estão mais seguras do que nunca”, informa o Sindicato dos Aeronautas

aviacao

A minha preocupação é com o processo de aumento de lucro a partir da diminuição de custos. Esta é uma necessidade administrativa em face de concorrência comercial, mas que deveria levar em consideração alguns aspectos que infelizmente são desprezados. A busca por diminuir custos a partir da contratação massiva de pilotos sem experiência diminui a margem de segurança. Esta é uma política adotada pelas empresas que conseguiram aumentar a quantidade de voos, dada a demanda crescente. Voar, pilotar carros de corrida e outras modalidades profissionais, a princípio, têm níveis altos de risco. A busca por equipamentos mais seguros e pelo aprimoramento técnico, por exemplo, aumentam a margem de segurança. Esta tem que ser uma busca eterna. Ninguém pode prever tudo, mas podemos melhorar ao ponto de vermos pilotos de carros e aeronaves alcançarem velocidades, habilidade e segurança que nos impressionam. Mas há um fator que não está sendo muito bem cuidado: o fator humano. Tecnicamente, nenhum acidente aéreo tem como resultado a responsabilidade de apenas um fator, mas um conjunto. Mesmo quando um piloto erra.

germanwings

No caso da tragédia da Germanwings, o piloto alemão de 27 anos, Andreas Lubitz, que provocou de forma intencional a queda do avião, o fator humano foi decisivo, mas não determinante. Tenho uma tremenda admiração pela engenharia alemã e a rigorosidade como tratam os processos de trabalho. Mas suas empresas disputam o mercado e parece que também vêm adotando o método de reduzir pessoal para garantir margens de lucro. A obrigatoriedade de dois pilotos na cabine é uma recomendação antiga, abandonada pela maioria das empresas aéreas. Vi uma entrevista com um comandante da empresa Iberia, que garantiu que por lá isto é uma norma e não uma recomendação.

relatosselvagens

Quem assistiu ao tragicômico filme Relatos Selvagens, que trata do comportamento humano diante de estresses extremos, viu um piloto fazer o mesmo que o Andreas Lubitz. Este piloto já tinha acompanhamento psiquiátrico bem antes das suas angústias e depressões diante do término de seu relacionamento amoroso. Alguns psiquiatras sabem que um dos momentos mais arriscados é quando o paciente em depressão profunda começa a aparentar melhoras. Muitas vezes é aí que acontecem os suicídios. Pode ter sido este o momento passado pelo Andreas Lubitz. Este é um caso de estresse, mas existem outros que não são provocados por problemas originados na vida particular de uma pessoa.

Recentemente, no Brasil, os aeronautas tornaram público que a maneira como as empresas aéreas têm gerenciado as condições de trabalho de seus tripulantes ao longo dos últimos anos não são consideradas  as melhores práticas de segurança operacional. As escalas de trabalho comprometem a segurança das operações. Para pilotos e tripulação, dormir pouco é um descaso com a qualidade de vida e segurança de voo.

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O medo que os pilotos e tripulações têm hoje terá consequências amanhã. O capital estrangeiro está comprando as empresas brasileiras e obrigando os aeronautas a serem registrados como trabalhadores de outros países. Estas são ameaças presentes, sendo necessária a discussão em nome da segurança de todos.

Há muito que se conhecer sobre este iceberg, que é grande, e voa.

 

2 thoughts on “O iceberg voador
  1. E ainda devemos considerar pressões das empresas por reduções de custos que avançam sobre a segurança como atravessar uma tempestade em vez de contorná-la, o que acarretaria em maiores custs de combustível e taxas maiores no aeroporto de destino em função de atraso (lembrar do acidente da Air France no Atlântico). Ou a não trocar de aeroporto, mesmo com uma lista séria de contraindicações sobre o destino programado (lembrar do grande acidente da TAMBÉM em Congonhas).
    O Estado e seus os órgãos reguladores, as agências internacionais e as associações de classe têm um papel fundamental no controle do jogo de mercado, que talvez por estar tão afeito aos altos e baixos, não perceberá que aeronaves exigem movimentos bem mais suaves.

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