O governo está sendo vítima do seu próprio projeto

Leon Ayres (20/03/2021)

Não vou entrar no mérito pessoal, das figuras que fazem parte da novela da vida política.

Na minha análise política pretendo ir no que considero o cerne das questões que envolvem os fracassos deste e de outros governos que sucederam a socialdemocracia em todo o mundo.

O recente ciclo da socialdemocracia, no início do Século XXI, declinou diante do avanço do liberalismo, em suas diversas formas de atuação. Volta a cena a ideia de que o Estado é um ente lento, incompetente e autoritário. 

Segundo a visão liberal mais comum, o papel do mercado seria competir e fazer uma natural autorregulação, acomodando a economia. Assim como na física, onde tudo tenderia à estabilidade. Mas como dizia a ex-Secretária de Fazenda Dorotéia Werneck, só existe competição e autorregulação de mercado entre os vendedores de pirulito e na Rua da Alfândega (no Rio de Janeiro).

Na economia real, formam-se cartéis que impõem seus preços e serviços. Adam Smith, um dos pais da teoria do mercado dizia que quando o governo e os empresários se reuniam era para fazer algum conluio contra o povo. 

Nem os Estados Unidos da América, a maior economia capitalista do mundo, têm o mercado esta autonomia. Lá o Estado regula tudo com as leis, impostos (que são dos maiores do mundo), o câmbio e os juros. Mas nos países dominados por eles o Estado sempre é reduzido para que possam fazer suas transações sem a regulação e o controle.

O Estado é o ente mais poderoso e, por isso, disputado a unhas e dentes. Em todos os países, sem exceção. A questão é: a serviço de quem o Estado se colocará.

A ideia mais geral dos Estados capitalistas, principalmente os EUA, é reduzir o Estado de outros países, incorporando o melhor do capital e deixando a população a ver navios.

O atual governo brasileiro imaginou que poderia aliar-se aos EUA para quebrar os donos do capital no Brasil e criar uma nova casta de ricos e milionários. Desde 1926 esta tem sido uma tática de sucesso. Em 1929 houve uma quebradeira de bancos e indústrias. Mas foram criadas as maiores riquezas dos EUA.

A tática está fazendo água no navio, que está afundando

Poderíamos colocar a culpa na pandemia do Covid-19, mas a recuperação econômica em diversos países mostra que esta afirmação não é verdadeira. Os que utilizaram o Estado como ente regulador e fomentador estão se mantendo ou superando seus problemas.

EUA e países da europa estão utilizando o Estado para distribuir dinheiro para não deixar de alavancar a economia. Nos EUA, muitos trilhões de dólares saíram do Tesouro Nacional para a população e empresas. Na maior economia capitalista do planeta, o mercado não se autorregulou, só está existindo graças à ajuda do Estado.

No Brasil o Estado foi tomado de forma a não regular e alavancar a economia, seja ajudando as pessoas ou empresas. Somente aos bancos.

O resultado está sendo catastrófico para as pessoas e empresas. E o pior é que o governo está perdendo o apoio do mercado e o controle do Estado. Um caos não esperado. Agora não tem mais volta. O governo anuncia que vai dominar o Estado pelas armas. Uma situação de desespero. Politicamente não terá o apoio de todas das forças armadas e quase nenhum da sociedade civil.

A opção pela destruição do Estado está no cerne da destruição dos objetivos do governo. A casa está caindo, pois desprezou o alicerce utilizado por todos os países desenvolvidos: o Estado. A roupa do rei está rasgada e não tem nem o apoio das costureiras para consertá-la. 

Por isso o governo está sem rumo, desesperado para manter o seu projeto inicial, recorrendo à barbárie e à intimidação. 

O Estado não morreu e anda como um fantasma nos pesadelos dos setores hegemônicos do atual governo.