O desenvolvimento do capitalismo distópico

Leon Ayres (abril de 2019)

Trabalho e lucro

O lucro, segundo Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx, é a apropriação da mais-valia através da cadeia produtiva da economia. 

Smith considerava que o lucro estava associado à propriedade privada do capital. A  renda de um empresário dependia do volume dos seus investimentos. Para ele, o lucro é criado pelo mercado pela lei da oferta e da procura. 

Para Ricardo, a renda do empresário é o que sobrava depois de pagar os salários e os custos de produção. Quanto maiores os custos salariais, menores seriam os lucros. Nesta teoria, a qualificação do operário traria melhores taxas produtivas e melhores salários.

Marx utiliza a compreensão de Ricardo, mas considera que o desenvolvimento da técnica individual utilizada na produção não aumenta a produtividade nem os salários. Ele coloca o trabalho como parte da mercadoria a ser produzida, sejam produtos ou serviços. As características das técnicas de produção coletiva, assim como as forças políticas e econômicas é que vão definir o valor dos salários. Isto seria resolvido na luta-de-classes, onde quem tiver mais força conseguirá impor melhores lucros ou salários.

Estas teorias vêm sendo utilizadas nos últimos cem anos e têm balizado as correntes político-econômicas. Veja o artigo “Do liberalismo utópico ao liberalismo científico”.

Capitalismo desenvolvimentista 

Esta fase do capitalismo tem como fundamento a apropriação da mais-valia através da cadeia produtiva da economia. O trabalho gera os produtos e serviços.

Desta forma, para alavancar a economia, será necessário que a massa de operários tenha empregos e bons salários. Com bons salários haverá compras de bens e serviços. O comércio alavancado faz encomendas nas indústrias que conseguem aumentar a sua produção. O setor de serviços cresce em função da melhoria geral e ajuda a alavancar a economia. O setor agrário e a pecuária são beneficiadas pelo mercado interno.

Este tipo de capitalismo foi adotado pela socialdemocracia do pós-guerra, como forma de conciliar a luta-de-classes (pacto social) e distribuir os lucros entre os empresários e operários de forma que beneficiassem aos dois. 

A Alemanha, tendo o tipo de governo que for, sempre adotou este tipo de capitalismo internamente. Bons salários, bom comércio, uma boa política industrial e bancos estatizados.

Estatizados? Os banqueiros foram expropriados pelo Estado? Não, banco estatizado é um banco que tem a obrigação de investir em produção. Os municípios alemães traçam as políticas de investimentos dos bancos conforme as características das regiões onde atuam. As regiões têm suas aptidões produtivas. Os bancos investem nessas aptidões. No Brasil, quem disser que gostaria de ver os bancos estatizados seria taxado de comunista. A Polônia adotou esta mesma política de obrigar os bancos a investirem conforme as políticas de produção baseadas nas aptidões de suas regiões e tem passado ao largo da crise econômica mundial. A Polônia, inclusive, tem um governo de extrema-direita.

Nestes países os bancos não reclamam. Têm uma margem de lucros menor, mas têm garantia que o país não passará por sobressaltos e poderão criar políticas de médio e longo prazo.

As “crises” capitalistas

Após a “crise”, ou calote, de 1929 o mundo passou a regulamentar a economia para evitar novas “crises”. Este acordo de regulação começou a ser negociado no Tratado Bretton Woods. Uma série de regras foram criadas para dar aos norte-americanos a legitimidade e hegemonia financeira e econômica. Neste período foi criada a paridade ouro-dólar, tornando esta moeda a referência internacional. 

Quando a Europa avançou na criação do seu bloco econômico, que se tornaria a União Européia, criou a sua moeda internacional, que atualmente se chama Euro. Neste período, o governo Nixon quebrou unilateralmente o acordo de Bretton Woods e o valor do dólar passou a ser flutuante, baseando-se na sua relação com o petróleo. Ou seja, novas “crises” (ou calotes) à vista. O primeiro deles, a crise do petróleo. Quem tinha dólares e pouca força econômica, “perdeu”.

Nos governos Busch, pai e filho, a regra era acabar com as regras. Sistema financeiro livre para provocar as “crises” que achassem conveniente para aumentar os lucros através da acumulação de capital. Bolhas econômicas permitidas, assim como investimentos sem o mínimo de controle. Surge então, em 2008, a “crise” imobiliária americana. De volta à 1929, onde o capitalismo rentista, que não é obrigado a investir em produção, volta a lucrar às custas de uma tragédia financeira, industrial e aumento mundial da pobreza.

O capitalismo rentista ressurge com força e se opõe ao capitalismo desenvolvimentista.

Capitalismo rentista

Seu desenvolvimento se consolida entre a Década de 70 e 80. Os governos Busch fazem a sua parte. Enquanto Busch filho enchia a cara de whiskey o seu vice Dick Cheney enchia os bolsos dos rentistas. O mundo via ressurgir o rentismo, agora em sua fase mais rica e poderosa.

Nesta fase, o capitalismo começa a prescindir das forças produtivas para alavancar sua acumulação de capital. Ao invés de criar as condições para melhores salários, melhoria do comércio e da indústria, os rentistas vão direto no bolso dos mais fracos e tiram o capital. Através das grandes corporações financeiras, geram investimentos em papéis, que geram mais investimentos e lucros sem que haja nenhuma contrapartida em produção. É o capital financeiro gerando apenas capital financeiro.

Acumular capital ocupando os governos, traçando políticas de drenagem do capital das indústrias e bancos mais fracos é bem mais rápido do que alavancar a economia pelo modelo desenvolvimentista. O processo desenvolvimentista é mais sólido, porém mais lento. Por que esperar tanto tempo? Como se dizia em 1929, “quem tem dinheiro manda”.

Mas o rentismo também cria condições conflitantes para o capitalismo. Daí surge a verdadeira crise para o capitalismo, a deterioração das forças produtivas. As indústrias perdem sua capacidade produtiva (desindustrialização), o desemprego aumenta, os salários diminuem e o comércio vende menos. Este é o neoliberalismo que surfa nas ondas da globalização, acumulando capital através do rentismo em todo o planeta.

Surgem os “novos donos do mundo”, imperadores que, através das suas grandes corporações, dominam e sugam o sangue de uma série de países. Em 2001 esta odisséia não se dá apenas no espaço, pois são donos das maiores empresas de tecnologia, mas também na interferência direta nas políticas dos países e nações, criando guerras e movimentos separatistas. Destruir ou separar, para comprar barato, vender serviços de recuperação através da engenharia, endividar as populações através de créditos bancários, comprar o futuro dos povos através de aposentadoria privada que nunca ocorrerá, vender celulares e desejos, esta é a política adotada pelas grandes corporações. No início do Século XXI os novos donos do mundo tinham cerca de um quatrilhão e duzentos trilhões de dólares para comprar à vista o que quisessem. Isto é cerca de vinte e cinco vezes o PIB do mundo. Daria para acabar com a miséria, a fome, as doenças em todo o mundo e ainda continuarem trilionários!

Capitalismo-de-Estado

A China, que é mais inimiga dos russos que dos americanos, fez uma opção diferente para o desenvolvimento capitalista. Adotou o que nos anos oitenta se denominava capitalismo-de-estado. Trata-se de um desenvolvimento capitalista planejado e controlado pelo Estado. 

Após a tomada do poder pelos Maoístas, foi decidido como política prioritária o desenvolvimento do setor primário para alimentar a sua grande população que se encontrava em estado de miséria. 

Para alavancar a acumulação familiar da riqueza no campo, no final do Século XX, a China adotou a propriedade privada no campo. Para fortalecer o mercado interno a China criou o sistema previdenciário. Desta forma, ao invés do cidadão chinês “guardar o seu dinheiro debaixo do colchão”, ele poderia aderir ao sistema previdenciário e poupar o que estava guardando como reservas. A poupança alavanca investimentos e cria um mercado consumidor.

No segundo momento a China decidiu investir no seu setor secundário, através de joint-ventures.  Eram parcerias entre o governo chinês e empresas multinacionais, que permitiam que estas indústrias recebessem incentivos para montarem suas estruturas produtivas na Mandchúria. A mão-de-obra era muito barata e não se pagava pelo local onde eram construídos os parques industriais. A exigência era: entra capital e saem produtos. Remessas de lucros eram taxadas de forma severa. As empresas se tornaram grandes exportadoras, os salários melhoraram e a China começou a incorporar tecnologias. O mundo reclamou muito dos chineses acusando-os de copiar produtos e vender por um preço mais baixo. O setor secundário chinês cresceu muito e hoje tem tecnologia para fazer produtos mais baratos, tanto de baixa quanto de alta tecnologia. A China também desenvolveu tecnologia militar capaz de manter suas disputas apenas no campo comercial.

Uma das características do capitalismo-de-estado é que o Estado cuida para que o investidor e empreendedor industrial tenham mais garantias de sobrevivência. O próprio Estado indica quais setores estão mais favoráveis para crescimento e neutraliza as ações predatórias das empresas maiores que acabam engolindo as mais fracas. Com isto a China pôde planejar e controlar o seu crescimento que já esteve a onze por cento ao ano!

A China entrou no mercado financeiro e industrial internacional com uma proposta um pouco diferente. Criou um banco que empresta dinheiro a juros bem mais baixos e faz parcerias econômicas diferenciadas das grandes corporações. O objetivo das grandes corporações é acumular rapidamente o capital e comprar quem faz negócios com elas. A China empresta dinheiro mais barato, faz parcerias comerciais e tecnológicas visando o desenvolvimento do parceiro comercial. Em troca, a exclusividade nos negócios. O Negócio da China prosperou. 

Esta é a política capitalista que ameaça aos norte-americanos, que vêm perdendo espaço comercial há alguns anos. Por isto os BRICS têm que ser destruídos, gritam todos os governos americanos. E nesta hora os russos são grandes aliados.

Mas há uma grande sinuca-de-bico nesta história. Os chineses são os maiores parceiros comerciais dos norte-americanos e os EUA são os que mais compram da China. Um não pode destruir o outro. 

Um novo conflito imperial

O capitalismo do Século XXI herda a deterioração das suas forças produtivas, a voracidade pela acumulação incessante do capital e seus conflitos internos.

Estamos vendo em quase todo o mundo um movimento político que está se tornando um grande desafio. Não é algo muito fácil de compreender. É o capitalismo em sua nova fase, pós-neoliberal e com sequelas trazidas pela globalização.

A voracidade pelo acúmulo de capital é inerente ao desenvolvimento do capitalismo. Se ele para de se alimentar, morre. Os novos donos do mundo sabem disso e atualmente combatem todos aqueles que não estiverem dispostos a alimentar, na boquinha, este tubarão branco faminto. Sabem que qualquer retrocesso na acumulação de capital poderá representar prejuízos financeiros que os colocarão em risco diante dos seus concorrentes  financistas. Um tubarão faminto pode devorar um outro da sua mesma espécie. 

O modelo desenvolvimentista que é predominante na socialdemocracia, obviamente, também representa perigo para os financistas. Para alavancar a economia gerando empregos, salário e industrialização, o modelo desenvolvimentista socialdemocrata tem que recapitalizar e fornecer crédito para os operários. Isto representa drenar capital do sistema financeiro para a população assalariada. 

Por isso o capitalismo financista está empenhado em eleger setores retrógrados, em diversos países, que ficam à serviço das corporações como garçons ávidos por gorjetas. Este tipo de atuação é muito antigo, fez parte das táticas formadoras das ditaduras latinoamericanas, africanas e asiáticas.  

O neoliberalismo trouxe sequelas para parte das forças econômicas que não participaram do banquete da globalização. Produtores pequenos e médios, em diversos países, foram prejudicados.  

Nos EUA, estes produtores foram afetados após a “crise” de 2008. Quando os EUA saem de uma crise econômica, crescem entre três e quatro por cento. Nesta última o crescimento foi pífio. As grandes corporações ganharam com a “crise”, mas o pequeno e médio perderam. Isto gerou o descontentamento aproveitado nas últimas eleições presidenciais. O que ganhou as eleições não foram as fake-news nas redes sociais, foi a base política do interior do país que foi prejudicada nesta manobra globalizada. Por esta razão estamos vendo nos EUA um movimento nacionalista mais forte. Foi assim que os republicanos aproveitaram esta oportunidade de retornar ao poder através de um discurso nacionalista de reconstrução dos EUA. Não foi a direita quem deu força ao Trump. Foi a conjuntura em declínio, com quedas de produção e reduções salariais, que fizeram brotar uma visão nacionalista e o reaparecimento da extrema-direita americana.

Para estes setores econômicos não é muito bom participar da globalização. Esta cria regras comerciais que facilitam a vida das grandes corporações, mas prejudicam os pequenos e médios. Produzir e comercializar só é fácil para quem está na hegemonia da globalização.

E este conflito de interesses entre os que não se beneficiam da globalização também está acontecendo na Europa. 

No Reino Unido, o empreendedor inglês, que construiu a sua empresa e alavancou o seu país, agora tem que se curvar às regras da União Europeia. Regras que favorecem mais aos empresários alemães e franceses do que a ele. Regras que também pioraram a sua produtividade e estão rebaixando o poder aquisitivo da população de classe média, média e baixa principalmente. Então grande parte da população preferiu sair da União Europeia e voltar ao antigo modelo inglês. Mais uma vez, as quedas de produção e reduções salariais, fizeram brotar uma visão nacionalista.

Em todos os países onde o empresariado nacional está sendo prejudicado pela globalização a alternativa está sendo o movimento nacionalista. Não é a extrema-direita que está ditando o desenrolar do processo, atua apenas como uma doença oportunista. 

Rumo ao capitalismo distópico

Como vimos, o neoliberalismo e o capitalismo financista prescindem parcialmente das forças produtivas. Já há muita riqueza acumulada, é só drenar contiguamente para as veias das grandes corporações.

Mas é possível prescindir quase que totalmente destas forças produtivas em razão do avanço tecnológico. A robotização, a tecnologia da informação, a interação entre os equipamentos já são instrumentos de acumulação de um novo tipo de capital que ainda está obscuro. E para os novos donos do poder é melhor que assim fique.

A produção e o consumo de bens de alta tecnologia já ocupam grande parte dos ganhos de capital representados por bens de consumo. Está ficando cada vez mais barato, fazendo com que os lucros sejam exponenciados em um tempo mais curto. 

O que o novo capitalismo está prescindindo é do próprio ser-humano. Estes podem ser descartados como objetos inúteis se não se tornarem o novo capital. Para o novo capitalismo o ser humano, como um todo, já é um capital. Quanto menos capital o indivíduo representar, menos ele terá valor nesta nova fase.

Os civis mortos na guerra, os assassinatos de pobres nas cidades, as crianças desnutridas na África e várias outras mazelas enfrentadas pelo seres-humanos não são mais emotivantes e nem  mobilizantes. A morte, principalmente de quem não tem poder, não é mais um tabu. Neste cenário ressurgem as linhas que se identificam com este padrão ideológico resultante destas relações político-econômicas. O preconceito de cor,  atividade sexual e a classe social acentuam-se. Ressurgem os movimentos nazistas. 

A utopia pressupõe um futuro que será alcançado a partir de algumas rupturas com o presente. A distopia é um presente sem futuro vivido através da opressão. Estas são experiências de muitos povos neste momento e que não interessam a este capitalismo que alguns classificam como distópico. A perspectiva da distopia é a  humanidade experimentar os instrumentos de dominação dos que não são capitais econômicos: a opressão, o desespero e a agonia.

O que estamos vendo no mundo é uma disputa entre o capitalismo pós-neoliberal e o seu filho, o capitalismo distópico. É Édipo tentando matar o seu pai. Por isto vamos ver alguns setores liberais brigando com setores que são erroneamente classificados como extrema-direita. 

Para tentar reverter esta situação é necessária uma análise diferenciada. Não podemos fazer uma avaliação simplória achando que a  extrema-direita esteja dando a linha política e tomando o poder. Mesmo com o desaparecimento ou diminuição da extrema-direita, o capitalismo distópico ainda existirá. 

O capital tecnológico da informação

Imagina-se que os robôs humanóides um dia irão se virar contra a humanidade. Bobagem, estes serão inofensivos e se tornarão eletrodomésticos. Serão comprados no supermercado como os computadores atuais, que já fizeram parte do imaginário como futuros dominadores da humanidade. A robótica deve ajudar bastante a medicina, e neste caso, a sua utilização será extraordinariamente útil. Os robôs que dominarão a humanidade já existem, estão dentro dos celulares e por trás deles há apenas seres humanos e softwares. 

As pessoas vivem diante dos seus celulares e não sabem que estão sendo dominados por robôs. Eles não são visíveis. São softwares simpáticos, aparentemente inofensivos e usados para comunicação com as pessoas. Eles monitoram a vida das pessoas, conhecem seus costumes e desejos, sugerem produtos baseados nos seus símbolos e muitas vezes os hipnotizam. As pessoas não conseguem mais ficar sem olhar para eles e responder imediatamente aos seus avisos e chamadas. Gera ansiedade e compulsividade, que servem para alavancar o consumo de produtos, serviços e remédios. Um milagre para multiplicação de síndromes. Tudo isto é capital. Se você não é ansioso, nem compulsivo, não atende de imediato os celulares ou softwares, cuidado, você pode não ser interessante para este novo tipo de capitalismo. Então terá que ser um ser-humano independente!

Para o capitalismo distópico é necessário que o maior capital de todos, o ser-humano, deva ter seu cérebro dominado. É para aí que estamos indo. Vemos isto nos filmes de ficção científica, onde empresas do mal tentam dominar o cérebro das pessoas para dominar o mundo. 

Na vida real os donos do mundo estão fazendo o mesmo, com instrumentos diferentes que dos filmes de ficção científica, cujos donos das empresas do mal, são rejeitadas pelo público. Na vida real os donos dessas empresas, às vezes são considerados filantropos e alguns idolatrados. 

A grande confusão da percepção

Lendo os diversos textos, nesta discussão sobre pintura, filosofia, linguagem das palavras, conceitos etc., venho dar minha contribuição à discussão, do meu ponto de vista que é mais focado na física e na filosofia.

A maior confusão desta discussão está na cilada de questionar a linguagem das palavras quando ela se refere às percepções, através da linguagem das palavras. Acaba se tornando uma meta-análise de linguagem das palavras, através dela mesma. Vejo muita poesia nos textos que falam das artes plásticas. A cilada laçou o artista plástico com as palavras, ao tentar explicar a sua obra e dos outros…

Então, qual caminho deveríamos trilhar? Nenhum. Engatinhamos no construir do nosso caminho, ainda vaidoso e ingênuo. Vamos entender as palavras e percepções, pois uma influenciará a outra, mas não conseguirão se integrar totalmente, além de que não chegaremos a nenhuma conclusão que não estivermos dispostos a encontrar.

A realidade é intangível, nunca poderemos conhecê-la. Pelas nossas projeções entramos em contato com suas diversas Ordens. A compreensão das Ordens é importante para compreendermos os limites dos nossos contatos com a realidade. Ordens não são dimensões (às vezes confundimos as duas), mas maneiras distintas de existir. Por exemplo, a dor e a explicação dela. Impossível explicarmos a dor. Usamos, por exemplo, a linguagem das palavras para nos referirmos a ela, mas quem nunca sentiu a dor não conseguirá entender. A linguagem das palavras é de uma ordem diferente da sensação da dor.

Da mesma forma sensação visual é de uma ordem diferente da linguagem das palavras e isto não quer dizer que quando falamos à respeito de uma outra Ordem estaremos aprisionando-a. Estaremos apenas tentando nos referir a ela dentro dos seus limites de cada Ordem.

A Teoria da Incerteza, de Heisemberg, nos ensina que quando estamos na experiência de uma Ordem não teremos a chance de experimentar outra, mas apenas nos referenciarmos a esta outra. Cabe à nossa maturidade perceber esta limitação, nos divertirmos e evoluirmos com ela.

O saber do olho é apenas do olho e das palavras apenas das palavras. Com as palavras não conseguiremos experimentar o saber do olho, nem com o olho poderemos experimentar o saber das palavras. Nós somos um aparelho desenvolvido a partir de aparelhos maiores e com mais tempo de existência. Não conhecemos nenhum dos dois e por isto voltamos à situação da incerteza.

O físico David Bohn parte do princípio que o ser humano tem duas experiências marcantes: a transcendente e a imanente. Ele chama de transcendente a experiência que se apoia em observações e conclusões. E de imanente a experiência onde concluímos com nossos mecanismos mais gerais de percepção. Um homem do campo, muitas vezes sabe que vai chover, mas não consegue explicar como ele percebe. E não precisa de todo este instrumental teórico e prático dados pela informação que foi concluída por estudos e experimentos. Para David Bohn a experiência imanente antecede a experiência transcendente. Ele afirma que, mesmo nos seus trabalhos científicos, ele já sabe o que quer encontrar, mesmo não tendo esta clareza ao longo das suas pesquisas.

Então, quando estamos no campo das artes, também estaremos utilizando as duas experiências em várias Ordens. E por sabermos apenas que as cores são variações dos comprimentos de onda da luz, nunca teremos certeza do que estamos vendo. Dependendo da distância, a cor é outra. Os astrônomos já sabem disto, já que, ao se aproximarem mais dos objetos que há anos observam, perceberam uma notável mudança de cor.

A cor somos nós!

Leon Ayres

14 de junho de 2015

 

Aos meus amigos evangélicos (e seus amigos)

Não sou evangélico, tenho muitos amigos que são, respeito-os, assim como os que pertencem a esta diversidade religiosa que temos no mundo.

Inicio este texto desta forma para dizer que não vou falar sobre a existência ou não de uma divindade ou questionar esta ou aquela crença. Isto é apenas para questionar aqueles que se propõem a exibir suas procurações divinas.

Assistindo ao documentário “Noivas do Cordeiro”, achei muito interessante o depoimento de uma moça que participou de uma predominante igreja evangélica na sua cidade em Minas Gerais. Lá o pastor dizia que só quem pertencia àquela igreja alcançaria salvação e iria para o céu. Em determinado momento ela se sentiu constrangida, pois imaginou que em um mundo composto de milhões de pessoas Deus não privilegiaria e daria chance apenas àquelas pessoas do seu município e que pertenciam àquela instituição religiosa. Ela e quase todas as outras mulheres do município saíram desta igreja que acabou em um lamentável descrédito. A maioria continuou evangélica, mas com o coração mais aberto entendendo que Deus daria diversas outras chances, dentro ou fora das igrejas para que alcançassem a paz e salvação que tanto desejavam. Aquele pastor falava em nome de Deus, mas elas não acreditavam mais na sua procuração.

Temos um recente exemplo de pastores que falam em nome de Deus e que fazem questão de incitar uma guerra santa contra o mal (quem não está do seu lado, ou concorrente de mercado). Tudo fundamentado em pequenas passagens bíblicas mal interpretadas. Uma evidentemente má intenção doutrinária. Há muitos pastores que leem os mesmos livros considerados sagrados e não produzem guerras e sim evangelizadores que agem a partir do diálogo, do convencimento, com a paz que estas escrituras sugerem.

Em nome de Deus, muitos atos beneficiaram muitas pessoas. Mas em Seu nome também foram cometidas muitas injustiças, crimes e guerras.

E a pior guerra é a guerra santa, pois quem está nela não pode voltar atrás ou negociar o que eles imaginam que Deus os mandou realizar. Seus seguidores são soldados reféns da interpretação de um pequeno grupo de homens que se denominam pastores. Em nome de Deus muitos se enriquecem também. O que é condenado pelos próprios ícones do cristianismo.

Este texto visa sugerir aos jovens evangélicos e simpatizantes a reflexão de que esta proliferação de pastores de “mercado” deve ser questionada, em nome de suas próprias convicções religiosas, tal qual fizeram as Noivas do Cordeiro.

“Voceu”

(para minha filha Marina Perez, no seu aniversário de 24 anos)

Acho muito importante que saibamos nos diferenciar dos outros para que possamos usufruir da nossa individualidade. Isto pode não ser muito fácil, mas é extremamente significativo em se tratando da educação, principalmente dos filhos.

Vivemos em uma sociedade que anda na direção de um pobre individualismo, do tipo americano, mas que também mostra sinais contestatórios (tipo as manifestações que estamos vendo). Isto é positivo e importante o suficiente para questionamentos.

Vejo você crescendo e amadurecendo com responsabilidade. Você também assume a responsabilidade dos outros. Bom para a sociedade que pode contar contigo. Mas é importante pensar em certas situações onde melhor é a dor do amadurecimento que a alegria do irresponsável. Deve-se diferenciar o “você” do “eu”.

Você nasceu com um brilho que atrai o olhar dos “menorezinhos”. Cuidar deles talvez seja uma missão mística e poética. Você é filha da terra e dela brotam as florestas que fincam suas raízes.

Neste seu aniversário, meu olhar me coloca diante de dois vieses: tudo aquilo que estabiliza a sua individualidade e o que não estabiliza. Sei que muitas vezes sou duro, mas sacrifico meu próprio desejo de ter ver gostando de mim, por estar tentando ajudar a você crescer, se livrando de qualquer dependência minha, para que possa exercer com liberdade a sua individualidade.

Não quero me identificar com você. Misturar você e eu é criar um “voceu”, um narcisismo ingênuo e infantil. Você é a continuidade de si. Seu aniversário é a celebração da sua existência e comemoração de tudo aquilo que você propiciou com ela. Ainda bem que você existe e insiste. Quero te amar e te gostar do meu jeito: você não sou eu, é você e eu.

Os partidos políticos e o movimento popular no Brasil

Existem menos que oito linhas de pensamento no mundo na atualidade.  Do ponto de vista político existem as grandes linhas político-partidárias: fascismo, liberalismo, social-liberalismo, socialdemocracia, socialismo (forma que pode variar da socialdemocracia ou comunismo) e comunismo. Também existem pequenas variações que representam grupos específicos: democracia-cristã, bolivarista, monárquico, centenário (herança aristocrática turca), sionistas (de direita e de esquerda) etc.

Uma sociedade politicamente evoluída tem partidos representativos das grandes linhas político-partidárias. No Brasil há cerca de trinta partidos registrados, o que caracteriza um verdadeiro balcão de negócios e não um sistema representativo de ideias. Nos EUA só há liberalismo: os democratas e republicanos. É um país economicamente rico com uma representação política pobre. E alguns corruptos também se transformaram em presidentes ou elegeram presidentes que os representaram. Os Kennedy, por exemplo, eram contrabandistas de bebidas durante o período da lei seca e seu filho John foi morto pelos seus próprios aliados mafiosos. Vale lembrar que Las Vegas era uma terra de bandidos que foi legalizada. Na vida real, no velho-oeste americano, quem perdeu foi o xerife. Os bandidos se tornaram braços do poder através de uma grande negociação. É uma ingenuidade imaginar que há uma democracia moderna por lá. Ao imitá-los criaremos nossos “Charlie Waterfall” (Carlinhos Cachoeira), enriquecendo com contravenções legitimadas e financiando campanhas.

         carlinhos-cachoeira far-west

O que atualmente no ocidente se denomina de democracia é o resultado da disputa da revolução francesa. Ela foi democrática para a classe social que estava ascendendo ao poder, subjugando a aristocracia. Atualmente ela está ultrapassada. Ainda temos muito a evoluir na construção de uma nova democracia para um futuro melhor para todos.

Devemos tentar aproveitar as oportunidades que o movimento popular oferece. Estamos vendo no Brasil que a hegemonia socialdemocrata aliada aos tradicionais corruptos (e aí não se entenda apenas como ladrões) está sufocando várias instituições que deveriam funcionar com alternativas de poder para a sociedade. Nenhuma grande hegemonia é saudável, mesmo aquelas que defendem os interesses que achamos mais legítimos. Há sempre que existir uma contraposição. Senão é a morte da política.

E no Brasil não há contraposição que se possa considerar legítima. A única contraposição que existe é a do liberalismo, que recentemente se apresentou com o nome neoliberalismo.  Enriqueceram mais ainda os ricos e empobreceram mais ainda os pobres. Seus aliados internacionais geraram a última grande crise mundial. Agora estão tentando retornar ao poder. O que há de novidade no Brasil é a lamentável formação de uma nova extrema-direita, que é diferente daquela hitleriana ou europeia. Ela tenta ser simpática, é fundamentalista e às vezes se traveste de ecológica. Ainda não tem uma grande força política, mas já é bastante atuante.

Felizmente todo organismo vivo cria anticorpos para sua sobrevivência.

Estamos diante de um movimento popular, de certa forma, espontâneo. Devemos estar atentos e participativos. Este ainda é um movimento de descontentamento. E em um movimento de descontentes nem todos estão querendo construir a mesma proposta. Há reivindicações de interesse popular e outras não. Ferem os seus próprios interesses.

manifestacoes_04

Os partidos de oposição vão dizer que este movimento é de descontentamento contra a política do governo federal. O governo federal vai tentar tratar o movimento como democrático, tentar dilui-lo dentro da sua linha política, pois ano que vem é ano de eleição. O prefeito Haddad, de São Paulo, que no começo estava marrento e intransigente, teve que ceder, a pedido do Lula.

Os militantes partidários se infiltraram no movimento e foram chamados de oportunistas. A extrema-direita militarizada, em geral, envia seus militantes para insuflar o quebra-quebra, e agora o crime desorganizado também.

Ulisses Guimarães dizia que o que os políticos mais temiam era o povo nas ruas. E este temor fez com que PT, através do Haddad, e o PSDB, através do Alckmin, tentassem caracterizar o movimento, como um todo, de vandalismo para reprimir com rigor. Agora todos estão “simpáticos”, mas continuam terroristas. Anunciaram que cortarão investimentos, inclusive na educação e saúde. Uma grande mentira para assustar a população que desconhece que as verbas destinadas à educação e saúde não podem ser destinadas para outros fins.

alckmin_haddad

A pauta oficial do movimento é pequena, pois nasceu do Movimento Passe Livre (MPL). Com as vitórias conquistadas, a tendência do movimento iniciado pelo MPL tenderá a diminuir. As faixas contra a corrupção, por mais investimentos (na saúde, educação e transportes), por exemplo, fazem parte de outra pauta mais ampla que ainda não tem um movimento capaz de dar resposta. Mas pode ser organizado.

Este movimento que estamos vendo, com todos os seus erros e acertos é a demonstração clara de que as coisas só mudam com PENSAMENTO e AÇÃO.

manifestacoes_01manifestacoes_03manifestacoes_02

Drácula

Drácula foi um cara muito inteligente, um excelente “marketeiro”.

Ele era um aristocrata Romeno que investiu muito dinheiro na defesa do seu país, principalmente durante as invasões turco-otomanas. Ele era muito rico e mulherengo.

Para assustar os inimigos criou uma grande propaganda como sendo um ser extremamente perverso e ameaçador (um costume dos exércitos). Ele disseminou que bebia sangue, empalava as pessoas etc.

Mas preservou a sua apreciação (e de quase todos os homens) pelo pescoço das moças. Suas propriedades se localizavam na belíssima Transilvânia, local onde muitos ficaram com medo de ir até lá.

Como “quem conta um conto aumenta um ponto”, hoje vemos uma infinidade de versões deste momento histórico que também se transformou em momentos histéricos. Mas também se transformou em arte.

Então vamos curtir…

Dia do Índio

Paradigmas a serem aprendidos com humildade

Atualmente a indústria química está dedicada aos estudos de vários remédios utilizados pelos índios da Amazônia, como por exemplo a copaíba, um excelente anti-inflamatório e cicatrizante. Melhor que a maioria dos produtos inventados pelas competentes indústrias inglesas, alemãs e americanas. É uma grande contribuição para a saúde.

Esta descoberta só está sendo possível porque os índios ainda existem.

Preservar as culturas vivas não é só respeitar os direitos de quem vive nestas terras há cerca de 500 séculos (no caso do Brasil). Também é fundamental para a preservação do conhecimento acumulado pela humanidade.

Os deuses não eram astronautas. O ser humano sempre foi engenheiro, médico, geógrafo, astrônomo, físico, químico e assim por diante. Ad aeterno.

Precisamos ter a humildade para entender isto e refletir nosso modelo de progresso e felicidade. Muitas destas culturas vivas, às vezes consideradas primitivas, já alcançaram estágios mais avançados do que estamos experimentando na atualidade.

Que um dia eu também me torne índio!

Assista Vídeo nas Aldeias, um projeto que visa mostrar a realidade de índios da amazônia através dos seus olhares.

video nas aldeias

Dia e noite nos abandonamos

Vozativabrasil, 03 de fevereiro de 2010

Pode parecer às vezes que ao não nos importarmos com as coisas ruins elas deixam de  existir. Negamos muito os nossos sofrimentos, como se eles pudessem ser substituídos  por   uma alegria ingênua e efêmera. Tentamos fazer parecer que o sofrimento é parte de  um  conto que chegará a um ponto aonde tudo virá a ser soluções e felicidade. Tudo isto  em  uma busca inglória de evitar o sofrimento. E acabamos sempre indo de encontro a ele  através de angústias e medos que surgem sem explicação aparente.

Sempre desejamos e nos frustramos porque não podemos realizar todos os nossos desejos. E esta experiência que queríamos realizar e não conseguimos, não desaparece ao longo do tempo, pois tudo fica registrado. Estamos sempre lembrando, como experiências, tanto o que vivemos quanto o que queríamos ter vivido e não conseguimos. E sentimos as mesmas emoções através das duas como se fossem a mesma. É o viver e não viver ao mesmo tempo, que experimentamos eternamente como partes de uma mesma experiência. Só nos resta amadurecer, assumindo nossa responsabilidade de ser diante deste paradoxo.

Não somos donos do nosso destino, mas somos responsáveis por ele. Podemos fazer escolhas diante das experiências que a vida nos apresenta. Podemos e devemos assumir responsabilidades. O ser humano sempre cresce quando assume responsabilidades. Somos uns, filhos, somos outros, pais.

Assumir responsabilidades e enfrentar desafios é uma forma de não nos abandonarmos.

Aprendendo com a história

Vozativa edição 110 – 02 de março de 2005

Quem milita politicamente sabe que muitas tendências disputam entre si os espaços para tentar implementar suas propostas. Isto é natural e não é exclusividade da esquerda ou da direita. Durante muitos anos, estas tendências de esquerda disputaram sindicatos, associações e outras entidades populares. Até aí nada de mau. Muito pelo contrário, esta é a disputa democrática.

O problema surge quando a esquerda ascende ao poder. As tendências se conhecem muito bem, e por muitas vezes, a corrente hegemônica, teme perder espaço e aí comete o erro que a devora. Acaba fazendo alianças com setores mais à direita para garantir que tendências menores de esquerda não a ameacem. Há partidos de esquerda que incentivam a migração de antigos inimigos para dentro das suas fileiras só para garantir votos no parlamento. Ingênua ilusão.

Segundo Darcy Ribeiro, que viveu no Peru esta experiência, as alianças políticas e administrativas que o governo fez, isolaram vários setores de esquerda para garantir uma pretensa governabilidade. O governo acabou realizando uma aliança social-liberal descaracterizando suas próprias propostas de um governo popular e democrático. Também não garantiu no parlamento que as propostas do governo fossem aprovadas pelo fato de existir tal aliança, pois como em quase todos os parlamentos do mundo, o lema que prevalece é o do antigo deputado Robertão (PFL): é dando que se recebe. Para o governo passar uma proposta tem que liberar alguma verba ou aprovar algum projeto de interesse particular.

Os setores liberais, logo que se fortaleceram novamente, graças à ajuda do governo, racharam e passaram a atacar o próprio governo. O desgaste foi tão grande que nas eleições seguintes quem ganhou foram os liberais que radicalizaram para a direita. Daí em diante foram vários governos fascistas, corruptos e anti-sociais, como no período Fujimori.

O mesmo aconteceu na Nicarágua com a Frente Sandinista. Os irmãos Ortega, líderes da corrente hegemônica da Frente, também fizeram alianças com os antigos setores liberais e acabaram por descaracterizar e desmantelar todo um projeto construído na luta, por anos, para criação de um governo popular e democrático. Perderam “feio” as eleições e até agora não conseguiram articular alguma oposição aos liberais.

Temos que estar de olho no futuro, aprendendo com os erros cometidos no passado.

No Brasil, há poucos dias saiu uma charge na imprensa sinalizando que de agora em diante a Câmara dos Deputados dará o tom da política com a antiga marchinha de carnaval, que também inspirou a política Robertão: “Mamãe eu clero, mamãe eu clero mamar …”.

Macunaíma

Uma parte muito interessante da obra Macunaíma, de Mário de Andrade, é o momento em que ele tem que comer a própria carne para sobreviver. O diálogo entre Macunaíma e um pedaço da sua perna é muito engraçado.

Depois da eleição do Severino Cavalcante, a oposição e os vários “aliados” do governo resolveram atacar a Medida Provisória 232. Defensores exclusivos, dentro e fora do governo, dos interesses da burguesia nacional, já bradaram: “se o governo quer dinheiro, que gaste menos”. Ou seja, cortar gastos, e assim como Macunaíma, que coma a própria carne para sobreviver.

A carne somos nós, funcionários públicos e os investimentos sociais. Se alguém sonhava com reajuste espontâneo é bom se preparar para brigar por ele. Os movimentos sociais também vão ter que lutar para disputar cada centavo. A Reforma Agrária, fundamental para solucionar muitos problemas sociais (pois não atinge apenas aos sem-terra) ficará prejudicada, tornando possível a volta da radicalização no campo.

A transposição do Rio São Francisco está garantida. Vai beneficiar algumas cidades e a monocultura de frutas para exportação. A água não chegará ao semi-árido. Lá, os sem-terra, sem-luz, sem-água e sem-dignidade também terão que comer a própria carne para sobreviver.

Dormindo no Metrô

Vozativa edição 107 – 03 de novembro de 2004

Diariamente pego o Metrô no RJ para vir ao trabalho. Como eu moro próximo do centro da cidade, não utilizo os bancos, prefiro vir em pé. Todos sabemos que os bancos de cor laranja estão reservados para idosos, pessoas com crianças etc. Não é incomum ver um marmanjo fingindo estar dormindo nestes bancos. Uma tremenda falta de solidariedade.

Já notei também, que independente da cor do banco, quase que somente as mulheres oferecem assento às grávidas. Muitos homens fingem não vê-las e outros continuam fingindo que estão dormindo…

Desculpem o desabafo, mas acho que crianças, velhos, grávidas e pessoas com dificuldades devem receber todo o carinho e solidariedade possíveis.