O desenvolvimento do capitalismo distópico

Leon Ayres (abril de 2019)

Trabalho e lucro

O lucro, segundo Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx, é a apropriação da mais-valia através da cadeia produtiva da economia. 

Smith considerava que o lucro estava associado à propriedade privada do capital. A  renda de um empresário dependia do volume dos seus investimentos. Para ele, o lucro é criado pelo mercado pela lei da oferta e da procura. 

Para Ricardo, a renda do empresário é o que sobrava depois de pagar os salários e os custos de produção. Quanto maiores os custos salariais, menores seriam os lucros. Nesta teoria, a qualificação do operário traria melhores taxas produtivas e melhores salários.

Marx utiliza a compreensão de Ricardo, mas considera que o desenvolvimento da técnica individual utilizada na produção não aumenta a produtividade nem os salários. Ele coloca o trabalho como parte da mercadoria a ser produzida, sejam produtos ou serviços. As características das técnicas de produção coletiva, assim como as forças políticas e econômicas é que vão definir o valor dos salários. Isto seria resolvido na luta-de-classes, onde quem tiver mais força conseguirá impor melhores lucros ou salários.

Estas teorias vêm sendo utilizadas nos últimos cem anos e têm balizado as correntes político-econômicas. Veja o artigo “Do liberalismo utópico ao liberalismo científico”.

Capitalismo desenvolvimentista 

Esta fase do capitalismo tem como fundamento a apropriação da mais-valia através da cadeia produtiva da economia. O trabalho gera os produtos e serviços.

Desta forma, para alavancar a economia, será necessário que a massa de operários tenha empregos e bons salários. Com bons salários haverá compras de bens e serviços. O comércio alavancado faz encomendas nas indústrias que conseguem aumentar a sua produção. O setor de serviços cresce em função da melhoria geral e ajuda a alavancar a economia. O setor agrário e a pecuária são beneficiadas pelo mercado interno.

Este tipo de capitalismo foi adotado pela socialdemocracia do pós-guerra, como forma de conciliar a luta-de-classes (pacto social) e distribuir os lucros entre os empresários e operários de forma que beneficiassem aos dois. 

A Alemanha, tendo o tipo de governo que for, sempre adotou este tipo de capitalismo internamente. Bons salários, bom comércio, uma boa política industrial e bancos estatizados.

Estatizados? Os banqueiros foram expropriados pelo Estado? Não, banco estatizado é um banco que tem a obrigação de investir em produção. Os municípios alemães traçam as políticas de investimentos dos bancos conforme as características das regiões onde atuam. As regiões têm suas aptidões produtivas. Os bancos investem nessas aptidões. No Brasil, quem disser que gostaria de ver os bancos estatizados seria taxado de comunista. A Polônia adotou esta mesma política de obrigar os bancos a investirem conforme as políticas de produção baseadas nas aptidões de suas regiões e tem passado ao largo da crise econômica mundial. A Polônia, inclusive, tem um governo de extrema-direita.

Nestes países os bancos não reclamam. Têm uma margem de lucros menor, mas têm garantia que o país não passará por sobressaltos e poderão criar políticas de médio e longo prazo.

As “crises” capitalistas

Após a “crise”, ou calote, de 1929 o mundo passou a regulamentar a economia para evitar novas “crises”. Este acordo de regulação começou a ser negociado no Tratado Bretton Woods. Uma série de regras foram criadas para dar aos norte-americanos a legitimidade e hegemonia financeira e econômica. Neste período foi criada a paridade ouro-dólar, tornando esta moeda a referência internacional. 

Quando a Europa avançou na criação do seu bloco econômico, que se tornaria a União Européia, criou a sua moeda internacional, que atualmente se chama Euro. Neste período, o governo Nixon quebrou unilateralmente o acordo de Bretton Woods e o valor do dólar passou a ser flutuante, baseando-se na sua relação com o petróleo. Ou seja, novas “crises” (ou calotes) à vista. O primeiro deles, a crise do petróleo. Quem tinha dólares e pouca força econômica, “perdeu”.

Nos governos Busch, pai e filho, a regra era acabar com as regras. Sistema financeiro livre para provocar as “crises” que achassem conveniente para aumentar os lucros através da acumulação de capital. Bolhas econômicas permitidas, assim como investimentos sem o mínimo de controle. Surge então, em 2008, a “crise” imobiliária americana. De volta à 1929, onde o capitalismo rentista, que não é obrigado a investir em produção, volta a lucrar às custas de uma tragédia financeira, industrial e aumento mundial da pobreza.

O capitalismo rentista ressurge com força e se opõe ao capitalismo desenvolvimentista.

Capitalismo rentista

Seu desenvolvimento se consolida entre a Década de 70 e 80. Os governos Busch fazem a sua parte. Enquanto Busch filho enchia a cara de whiskey o seu vice Dick Cheney enchia os bolsos dos rentistas. O mundo via ressurgir o rentismo, agora em sua fase mais rica e poderosa.

Nesta fase, o capitalismo começa a prescindir das forças produtivas para alavancar sua acumulação de capital. Ao invés de criar as condições para melhores salários, melhoria do comércio e da indústria, os rentistas vão direto no bolso dos mais fracos e tiram o capital. Através das grandes corporações financeiras, geram investimentos em papéis, que geram mais investimentos e lucros sem que haja nenhuma contrapartida em produção. É o capital financeiro gerando apenas capital financeiro.

Acumular capital ocupando os governos, traçando políticas de drenagem do capital das indústrias e bancos mais fracos é bem mais rápido do que alavancar a economia pelo modelo desenvolvimentista. O processo desenvolvimentista é mais sólido, porém mais lento. Por que esperar tanto tempo? Como se dizia em 1929, “quem tem dinheiro manda”.

Mas o rentismo também cria condições conflitantes para o capitalismo. Daí surge a verdadeira crise para o capitalismo, a deterioração das forças produtivas. As indústrias perdem sua capacidade produtiva (desindustrialização), o desemprego aumenta, os salários diminuem e o comércio vende menos. Este é o neoliberalismo que surfa nas ondas da globalização, acumulando capital através do rentismo em todo o planeta.

Surgem os “novos donos do mundo”, imperadores que, através das suas grandes corporações, dominam e sugam o sangue de uma série de países. Em 2001 esta odisséia não se dá apenas no espaço, pois são donos das maiores empresas de tecnologia, mas também na interferência direta nas políticas dos países e nações, criando guerras e movimentos separatistas. Destruir ou separar, para comprar barato, vender serviços de recuperação através da engenharia, endividar as populações através de créditos bancários, comprar o futuro dos povos através de aposentadoria privada que nunca ocorrerá, vender celulares e desejos, esta é a política adotada pelas grandes corporações. No início do Século XXI os novos donos do mundo tinham cerca de um quatrilhão e duzentos trilhões de dólares para comprar à vista o que quisessem. Isto é cerca de vinte e cinco vezes o PIB do mundo. Daria para acabar com a miséria, a fome, as doenças em todo o mundo e ainda continuarem trilionários!

Capitalismo-de-Estado

A China, que é mais inimiga dos russos que dos americanos, fez uma opção diferente para o desenvolvimento capitalista. Adotou o que nos anos oitenta se denominava capitalismo-de-estado. Trata-se de um desenvolvimento capitalista planejado e controlado pelo Estado. 

Após a tomada do poder pelos Maoístas, foi decidido como política prioritária o desenvolvimento do setor primário para alimentar a sua grande população que se encontrava em estado de miséria. 

Para alavancar a acumulação familiar da riqueza no campo, no final do Século XX, a China adotou a propriedade privada no campo. Para fortalecer o mercado interno a China criou o sistema previdenciário. Desta forma, ao invés do cidadão chinês “guardar o seu dinheiro debaixo do colchão”, ele poderia aderir ao sistema previdenciário e poupar o que estava guardando como reservas. A poupança alavanca investimentos e cria um mercado consumidor.

No segundo momento a China decidiu investir no seu setor secundário, através de joint-ventures.  Eram parcerias entre o governo chinês e empresas multinacionais, que permitiam que estas indústrias recebessem incentivos para montarem suas estruturas produtivas na Mandchúria. A mão-de-obra era muito barata e não se pagava pelo local onde eram construídos os parques industriais. A exigência era: entra capital e saem produtos. Remessas de lucros eram taxadas de forma severa. As empresas se tornaram grandes exportadoras, os salários melhoraram e a China começou a incorporar tecnologias. O mundo reclamou muito dos chineses acusando-os de copiar produtos e vender por um preço mais baixo. O setor secundário chinês cresceu muito e hoje tem tecnologia para fazer produtos mais baratos, tanto de baixa quanto de alta tecnologia. A China também desenvolveu tecnologia militar capaz de manter suas disputas apenas no campo comercial.

Uma das características do capitalismo-de-estado é que o Estado cuida para que o investidor e empreendedor industrial tenham mais garantias de sobrevivência. O próprio Estado indica quais setores estão mais favoráveis para crescimento e neutraliza as ações predatórias das empresas maiores que acabam engolindo as mais fracas. Com isto a China pôde planejar e controlar o seu crescimento que já esteve a onze por cento ao ano!

A China entrou no mercado financeiro e industrial internacional com uma proposta um pouco diferente. Criou um banco que empresta dinheiro a juros bem mais baixos e faz parcerias econômicas diferenciadas das grandes corporações. O objetivo das grandes corporações é acumular rapidamente o capital e comprar quem faz negócios com elas. A China empresta dinheiro mais barato, faz parcerias comerciais e tecnológicas visando o desenvolvimento do parceiro comercial. Em troca, a exclusividade nos negócios. O Negócio da China prosperou. 

Esta é a política capitalista que ameaça aos norte-americanos, que vêm perdendo espaço comercial há alguns anos. Por isto os BRICS têm que ser destruídos, gritam todos os governos americanos. E nesta hora os russos são grandes aliados.

Mas há uma grande sinuca-de-bico nesta história. Os chineses são os maiores parceiros comerciais dos norte-americanos e os EUA são os que mais compram da China. Um não pode destruir o outro. 

Um novo conflito imperial

O capitalismo do Século XXI herda a deterioração das suas forças produtivas, a voracidade pela acumulação incessante do capital e seus conflitos internos.

Estamos vendo em quase todo o mundo um movimento político que está se tornando um grande desafio. Não é algo muito fácil de compreender. É o capitalismo em sua nova fase, pós-neoliberal e com sequelas trazidas pela globalização.

A voracidade pelo acúmulo de capital é inerente ao desenvolvimento do capitalismo. Se ele para de se alimentar, morre. Os novos donos do mundo sabem disso e atualmente combatem todos aqueles que não estiverem dispostos a alimentar, na boquinha, este tubarão branco faminto. Sabem que qualquer retrocesso na acumulação de capital poderá representar prejuízos financeiros que os colocarão em risco diante dos seus concorrentes  financistas. Um tubarão faminto pode devorar um outro da sua mesma espécie. 

O modelo desenvolvimentista que é predominante na socialdemocracia, obviamente, também representa perigo para os financistas. Para alavancar a economia gerando empregos, salário e industrialização, o modelo desenvolvimentista socialdemocrata tem que recapitalizar e fornecer crédito para os operários. Isto representa drenar capital do sistema financeiro para a população assalariada. 

Por isso o capitalismo financista está empenhado em eleger setores retrógrados, em diversos países, que ficam à serviço das corporações como garçons ávidos por gorjetas. Este tipo de atuação é muito antigo, fez parte das táticas formadoras das ditaduras latinoamericanas, africanas e asiáticas.  

O neoliberalismo trouxe sequelas para parte das forças econômicas que não participaram do banquete da globalização. Produtores pequenos e médios, em diversos países, foram prejudicados.  

Nos EUA, estes produtores foram afetados após a “crise” de 2008. Quando os EUA saem de uma crise econômica, crescem entre três e quatro por cento. Nesta última o crescimento foi pífio. As grandes corporações ganharam com a “crise”, mas o pequeno e médio perderam. Isto gerou o descontentamento aproveitado nas últimas eleições presidenciais. O que ganhou as eleições não foram as fake-news nas redes sociais, foi a base política do interior do país que foi prejudicada nesta manobra globalizada. Por esta razão estamos vendo nos EUA um movimento nacionalista mais forte. Foi assim que os republicanos aproveitaram esta oportunidade de retornar ao poder através de um discurso nacionalista de reconstrução dos EUA. Não foi a direita quem deu força ao Trump. Foi a conjuntura em declínio, com quedas de produção e reduções salariais, que fizeram brotar uma visão nacionalista e o reaparecimento da extrema-direita americana.

Para estes setores econômicos não é muito bom participar da globalização. Esta cria regras comerciais que facilitam a vida das grandes corporações, mas prejudicam os pequenos e médios. Produzir e comercializar só é fácil para quem está na hegemonia da globalização.

E este conflito de interesses entre os que não se beneficiam da globalização também está acontecendo na Europa. 

No Reino Unido, o empreendedor inglês, que construiu a sua empresa e alavancou o seu país, agora tem que se curvar às regras da União Europeia. Regras que favorecem mais aos empresários alemães e franceses do que a ele. Regras que também pioraram a sua produtividade e estão rebaixando o poder aquisitivo da população de classe média, média e baixa principalmente. Então grande parte da população preferiu sair da União Europeia e voltar ao antigo modelo inglês. Mais uma vez, as quedas de produção e reduções salariais, fizeram brotar uma visão nacionalista.

Em todos os países onde o empresariado nacional está sendo prejudicado pela globalização a alternativa está sendo o movimento nacionalista. Não é a extrema-direita que está ditando o desenrolar do processo, atua apenas como uma doença oportunista. 

Rumo ao capitalismo distópico

Como vimos, o neoliberalismo e o capitalismo financista prescindem parcialmente das forças produtivas. Já há muita riqueza acumulada, é só drenar contiguamente para as veias das grandes corporações.

Mas é possível prescindir quase que totalmente destas forças produtivas em razão do avanço tecnológico. A robotização, a tecnologia da informação, a interação entre os equipamentos já são instrumentos de acumulação de um novo tipo de capital que ainda está obscuro. E para os novos donos do poder é melhor que assim fique.

A produção e o consumo de bens de alta tecnologia já ocupam grande parte dos ganhos de capital representados por bens de consumo. Está ficando cada vez mais barato, fazendo com que os lucros sejam exponenciados em um tempo mais curto. 

O que o novo capitalismo está prescindindo é do próprio ser-humano. Estes podem ser descartados como objetos inúteis se não se tornarem o novo capital. Para o novo capitalismo o ser humano, como um todo, já é um capital. Quanto menos capital o indivíduo representar, menos ele terá valor nesta nova fase.

Os civis mortos na guerra, os assassinatos de pobres nas cidades, as crianças desnutridas na África e várias outras mazelas enfrentadas pelo seres-humanos não são mais emotivantes e nem  mobilizantes. A morte, principalmente de quem não tem poder, não é mais um tabu. Neste cenário ressurgem as linhas que se identificam com este padrão ideológico resultante destas relações político-econômicas. O preconceito de cor,  atividade sexual e a classe social acentuam-se. Ressurgem os movimentos nazistas. 

A utopia pressupõe um futuro que será alcançado a partir de algumas rupturas com o presente. A distopia é um presente sem futuro vivido através da opressão. Estas são experiências de muitos povos neste momento e que não interessam a este capitalismo que alguns classificam como distópico. A perspectiva da distopia é a  humanidade experimentar os instrumentos de dominação dos que não são capitais econômicos: a opressão, o desespero e a agonia.

O que estamos vendo no mundo é uma disputa entre o capitalismo pós-neoliberal e o seu filho, o capitalismo distópico. É Édipo tentando matar o seu pai. Por isto vamos ver alguns setores liberais brigando com setores que são erroneamente classificados como extrema-direita. 

Para tentar reverter esta situação é necessária uma análise diferenciada. Não podemos fazer uma avaliação simplória achando que a  extrema-direita esteja dando a linha política e tomando o poder. Mesmo com o desaparecimento ou diminuição da extrema-direita, o capitalismo distópico ainda existirá. 

O capital tecnológico da informação

Imagina-se que os robôs humanóides um dia irão se virar contra a humanidade. Bobagem, estes serão inofensivos e se tornarão eletrodomésticos. Serão comprados no supermercado como os computadores atuais, que já fizeram parte do imaginário como futuros dominadores da humanidade. A robótica deve ajudar bastante a medicina, e neste caso, a sua utilização será extraordinariamente útil. Os robôs que dominarão a humanidade já existem, estão dentro dos celulares e por trás deles há apenas seres humanos e softwares. 

As pessoas vivem diante dos seus celulares e não sabem que estão sendo dominados por robôs. Eles não são visíveis. São softwares simpáticos, aparentemente inofensivos e usados para comunicação com as pessoas. Eles monitoram a vida das pessoas, conhecem seus costumes e desejos, sugerem produtos baseados nos seus símbolos e muitas vezes os hipnotizam. As pessoas não conseguem mais ficar sem olhar para eles e responder imediatamente aos seus avisos e chamadas. Gera ansiedade e compulsividade, que servem para alavancar o consumo de produtos, serviços e remédios. Um milagre para multiplicação de síndromes. Tudo isto é capital. Se você não é ansioso, nem compulsivo, não atende de imediato os celulares ou softwares, cuidado, você pode não ser interessante para este novo tipo de capitalismo. Então terá que ser um ser-humano independente!

Para o capitalismo distópico é necessário que o maior capital de todos, o ser-humano, deva ter seu cérebro dominado. É para aí que estamos indo. Vemos isto nos filmes de ficção científica, onde empresas do mal tentam dominar o cérebro das pessoas para dominar o mundo. 

Na vida real os donos do mundo estão fazendo o mesmo, com instrumentos diferentes que dos filmes de ficção científica, cujos donos das empresas do mal, são rejeitadas pelo público. Na vida real os donos dessas empresas, às vezes são considerados filantropos e alguns idolatrados. 

Do liberalismo utópico ao liberalismo científico

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“As aventuras da socialdemocracia na busca de sua identidade”

A socialdemocracia em 1 minuto

Ao longo de várias décadas, a socialdemocracia vem tentando ocupar seu espaço na luta politica. No início do século XX foi inserida nos movimentos revolucionários proletários, optando por um dos lados do conflito entre capital e trabalho.

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Após a Segunda Guerra a socialdemocracia já perdera o seu caráter revolucionário, afirmando ser possível a conciliação entre o capital e o trabalho. Este pacto social propõe que a classe dominante retorne para os trabalhadores parte da mais-valia apropriada na produção de riquezas, assim como o arrefecimento da luta revolucionária trocando-a por outra, por melhorias de vida. Começaram as experiências com transferências desta mais-valia através de programas de ganhos remuneratórios proporcionais à lucratividade das empresas. Em tese, se a empresa lucrasse mais, os empregados também receberiam mais.

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Este programa de distribuição de renda foi largamente experimentado na Europa, onde os trabalhadores da Volkswagen, por exemplo, obtiveram considerável melhoria dos seus padrões de vida.  Mas os donos e os trabalhadores da Volkswagen, dentro dos seus objetivos competitivos, também perceberam que ganhariam mais se não adotassem esta mesma política de distribuição dos lucros nas suas filiais em outros países. A Volkswagen no Brasil produz e exporta mais que a alemã. Através de arrocho salarial, a mais-valia dos trabalhadores da Volkswagen brasileira retorna para a matriz em forma de lucro. Para ser socialdemocrata na Europa necessita-se utilizar de políticas liberais na América Latina, por exemplo.

No Brasil a Varig operava um modelo onde, em tese, todos os seus funcionários seriam cotistas da Fundação Ruben Berta, empresa holding da Varig e as várias outras que compunham o grupo. Este modelo conceitual, nunca implementou uma política de participação nos lucros a partir do aumento de produtividade. A Varig sempre ofereceu ganhos indiretos e benefícios através dos serviços como descontos de passagem, restaurante a preço baixo e serviço médico nos locais de trabalho etc.

A socialdemocracia içou suas velas para navegar, mas pegou fortes ventos que balançaram o barco para a esquerda e para a direita. A economia capitalista tende à expansão em uma tentativa natural de transformar tudo em capital, para sua própria sobrevivência. Isto extrapola as forças de contensão socialdemocrata sobre o capitalismo, na sua intenção de torna-lo ”mais humano”.

Engels se esforçou em mostrar a visão ingênua e utópica de correntes políticas que acham que a classe dominada vai tocar o coração da classe dominante através de belos princípios humanistas. O liberalismo não é monolítico e nele também há uma corrente que acha que a classe dominante pode ter o seu coração tocado e “dividir o pão” para construir uma sociedade MENOS desigual e um capitalismo mais humano e estável. É a Utopia do liberalismo progressista.

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De outro lado vemos um liberalismo conservador, expansionista, que domina a política macroeconômica mundial, através do mercado financeiro e das guerras, levando o capitalismo ao estágio do império dos oligopólios, previsto por Marx.

Fábrica de crises

O liberalismo é um sistema que se desenvolve a partir de uma percepção e foco na atuação individual e não coletiva, e por isto cria uma noção de direito individual e não de necessidade da coletividade. Esta ideia apoia a institucionalização da propriedade privada, apontando para visão econômica que visa a acumulação concentrada de riquezas.

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O liberalismo autointitulado progressista acredita que o sistema capitalista deve se preocupar em evitar, ou minimizar, as desigualdades para fortalecer a economia. Para os liberais progressistas a acumulação excessiva de capital cria condições vulneráveis para o sistema capitalista, criando crises que propiciam mais acúmulo de capital por alguns poucos, gerando mais miséria e suas mazelas.

Os liberais conservadores (intitulado pelos liberais progressistas, de predadores) acumulam capital de forma rápida e incessante. Estes liberais são donos dos maiores bancos, instituições financeiras, indústrias bélicas e de alguns países também. Eles formam as grandes corporações que atualmente têm, em dinheiro, 1,2 quatrilhão de dólares disponível para comprar à vista. Isto é cerca de 20 vezes tudo que é produzido em todo o mundo! É o Hot Money, um dinheiro que vem rápido e totalmente disponível. Estes liberais conservadores financiam a eleição de vários governos que atuam como instrumentos de transfusão de capital das veias dos trabalhadores para as grandes corporações.

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Segundo o analista americano de política e economia Thom Hartmann, a crise de 1929 (a Grande Depressão) trouxe diversos ensinamentos para estes liberais. Naquele período tudo se desvalorizou. Então, quem tinha dinheiro na mão comprou barato. Apesar de milhões de americanos ficarem desempregados, de a produção industrial cair pela metade e provocar a quebra de mais de 5.000 bancos, a crise criou as maiores fortunas americanas. Na época o lema era “dinheiro vivo manda”. Após este período, muitas medidas de controle do sistema financeiro foram adotadas para se evitar que uma nova crise acontecesse. Mas várias medidas foram derrubadas nos governos Reagan e Bush Jr. A crise de 1929 foi criada a partir de uma sistemática que vemos bastante nas propagandas das campanhas eleitorais nacionais pelos partidos políticos que se propõem à “modernização da economia”.

A descriminalização de drogas letais

Uma forma de você transferir renda do capital para o trabalho e vice-versa é através da tributação diferenciada dos impostos. Também é uma forma de você controlar a economia para que os que os que têm grande capacidade de acumular capital e comprar não criem situações críticas para o sistema como um todo. Impostos são a forma tradicional de transferência. Podem ser progressivos e às vezes até incidir sobre o patrimônio. Quando os impostos sobre os mais ricos estão abaixo de determinado patamar (nos EUA 50%) há um acelerado acúmulo de dinheiro, o Hot Money, que pode comprar tudo a preços baixíssimos e criam-se as bolhas de crescimentos artificiais que acabam desestabilizando a economia.

Na década de 20 os americanos propuseram a redução do imposto máximo de 91%, para milionários e bilionários, para 25%. Privatizaram órgãos e atividades governamentais, desregulamentaram vários setores. O lema era “menos governo nas empresas, mais empresas no governo”. Segundo os analistas econômicos americanos, estas medidas levaram ao crash de 1929.

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As regras adotadas após a crise de 1929, para se evitar que uma nova crise acontecesse, sofreram modificações ao longo do governo Reagan. É derrubada a Lei Antitrust, que permitiu a crescente junção entre empresas, tornando-as monolíticas. Igualmente se beneficiaram da Reforma da Previdência, tirando dinheiro dos aposentados para o sistema financeiro. Outro mecanismo que beneficiou o ataque predatório foi a desregulamentação do sistema bancário americano.

Estamos diante de mais uma crise, que explodiu em 2008, mas começou antes, e que, segundo Thom Hartmann, criará em 2016 um novo crash. Para ele esta crise, assim como as outras são tecnicamente provocadas para acelerar o processo voraz de acúmulo de capital.

Nos EUA uma bolha no mercado de hipotecas propiciou a transferência de renda da classe média para o mercado financeiro através de investimentos em Derivativos.

Derivativos são investimentos financeiros que recebem esta denominação porque seu preço de compra e venda deriva do preço de outro ativo, um bem ou outro instrumento financeiro. Por exemplo: o mercado futuro de petróleo é uma modalidade de derivativo cujo preço depende dos negócios realizados no mercado a vista de petróleo, seu instrumento de referência. O contrato futuro de dólar deriva do dólar a vista, o futuro de café, do café a vista, e assim por diante. Estes investidores não são obrigados a divulgar publicamente o montante disponível em carteira. Trata-se de um tipo de investimento obscuro, e não apenas para quem está de fora.

O negócio, apesar de complexo, tem uma lógica bem simples, como em 1929.

Criou-se uma bolha com a elevação artificial do preço dos imóveis que levou a um crash que abalou a economia americana e mais uma dúzia de países, como pinos de boliche. Os investimentos Derivativos indexados pelo mercado de hipotecas despencaram. Imediatamente as grandes corporações mudaram de posição e investiram neste mercado. Ou seja, compraram a preços irrisórios. Em seguida compraram as casas que haviam se desvalorizado nesta crise. A empresa Blackstone Group (atuante nos mercados financeiro e bélico), em um dia, comprou milhares de casas em Atlanta. Subiram os rendimentos dos investimentos de Derivativos indexados pelo mercado de hipotecas. Mais um lucro com apenas uma operação. E por aí vai… As grandes corporações acumularam mais capital, transferido, nos EUA, da classe média. Estes investimentos em Derivativos, que permitem especulações que podem levar à pobreza boa parte da população mundial já foram considerados crime nos EUA! No governo Reagan a legislação foi modificada. Uma descriminalização de drogas letais! Segundo relatórios da ONG Oxfam International, após a crise de 2008 a desigualdade aumentou em todo o planeta enquanto dobrou o número de bilionários…

Deverão ser cerca de 10 anos de crise. Tempos favoráveis à radicalização dos movimentos políticos, que em época de crise, tentam aproveitar a conjuntura para uma tomada mais rápida do poder e mudar o modelo político, ou, em contrapartida, tentar garantir a preservação um modelo em desgaste ou obsolescência.

UFC Brasil: conflitos de interesses entre os liberais e socialdemocratas

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No Brasil os liberais conservadores dominaram a economia desde o golpe civil-militar, estruturado em benefício dos liberais e operacionalizado pelos militares brasileiros.

A socialdemocracia brasileira se estruturou durante as lutas contra a ditadura. A maioria das organizações que combatiam a ditadura ainda não tinha percebido quais eram seus verdadeiros programas máximos em função de terem como foco mais importante o inimigo comum. Em um movimento de descontentes, nem todo mundo tem o mesmo projeto.  O MDB foi um ambiente favorável para o desenvolvimento de um centro político cultural para a modelagem da emergente socialdemocracia pós-ditadura. O tolerante MDB nasceu com a finalidade de abrigar diversas tendências políticas em suas fileiras. Com o avanço da conjuntura, os socialdemocratas foram ocupando o cenário político, com expressões como o sindicalismo de base operária industrial, o trabalhismo, o socialismo moreno, o social-liberalismo etc.

A socialdemocracia sindicalista nasceu do vácuo político deixado pelos partidos comunistas brasileiros, que ao se subordinarem a estruturas internacionais acabaram se alinhando com políticas que naturalmente focavam mais as lutas políticas internacionais que a realidade brasileira. Os partidos comunistas brasileiros ligados à Europa ou União Soviética, por exemplo, tinham que muitas vezes abdicar de táticas para enfrentamento da luta de classe em função de proteger algum enfrentamento ou negociação internacional.

A socialdemocracia sindicalista fundou seu partido, aglutinando, no início, diversas tendências políticas marxistas, anarquistas, trotskistas e religiosas, órfãos de uma frente política que as abrigasse. Este foi o período onde a luta política enriqueceu-se, criando uma nova política de formação de base partidária popular que os partidos comunistas naquele período também não adotavam, uma vez que os investimentos destes partidos, na sua formação ou em períodos de repressão, são na qualidade e não na quantidade dos quadros.

Com o avanço e o crescimento da socialdemocracia sindicalista, a luta interna se acirrou. A corrente que fundou o Partido dos Trabalhadores se viu ameaçada pelas outras de orientações marxistas que formavam um bloco para tentar a hegemonia. Esta disputa, ganha pela corrente fundadora, denominada Articulação, foi chamada de “revolta dos bagrinhos”, um marco para definição de uma hegemonia que colocou no programa partidário a definição do seu caráter formalmente socialdemocrata. Foi neste período que várias correntes de cunho marxistas racharam com o partido, ou foram expulsas. Outros partidos socialdemocratas foram sendo criados simultaneamente com alguma expressão, como o PDT, PSB, PSOL. Na socialdemocracia, modelos liberais considerados progressistas foram agregados ao programa mínimo de diversos partidos para alavancar a economia, utilizando mecanismos de distribuição de renda e lucro através do controle de impostos e programas de transferência de renda.

Não vamos nos confundir por causa das siglas partidárias. O PSD e o PSDB, apesar das letras S e D, são partidos predominantemente liberais. O liberalismo mais conservador criou sua zona de influência política se inserindo em diversos partidos políticos brasileiros de: direita ou liberais. Até 2002 os liberais conservadores dominaram as políticas econômicas no Brasil com seus lucrativos planos econômicos. O modo de operar dos liberais predadores no Brasil não é diferente do resto do mundo. E os vimos nos endividando internacionalmente, quebrando a economia brasileira e adquirindo ativos preciosos a preços irrisórios. Mesmo o “milagre brasileiro” foi uma armadilha. Ficamos muito endividados e mais dependentes do mercado financeiro internacional. No Brasil, o liberalismo conservador sempre foi hegemônico, apoiado nas grandes corporações.

A adoção de programas de transferência de renda, a partir de 2003, principalmente para a população que não representa lucro mais imediato, contraria uma série de interesses liberais das grandes corporações. Para a população interessa o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e para o grande capital o Superávit Primário (quanto o governo economizou para transferir para as corporações).

Em épocas de crise, alguém tem que arcar com o ônus. As corporações têm que manter seu desenvolvimento capitalista e acumular. A compensação, em prol das corporações, se dá através do não pagamento de salários, garantido o lucro ou minimizando prejuízos da competição capitalista. Ou seja, o desemprego como instrumento de deslocamento de renda do trabalho para o capital. A socialdemocracia sindicalista brasileira optou por não permitir esta realização de lucros através do desemprego, o que gerou um grande descontentamento, mesmo de setores liberais que vinham dando apoio ao governo.

Reproduzindo o cenário mundial, o Brasil apresenta uma rinha de liberais e socialdemocratas disputando o aparelho de Estado para defender seus interesses. Pela utópica e frágil fundamentação, os socialdemocratas e liberais progressistas têm que ceder nas negociações.

Para a socialdemocracia brasileira, a tática de sobrevivência seria ampliar seu espectro político com campos mais comprometidos, não apenas com a melhoria de vida, mas com a luta para reincorporar a renda desviada do trabalho para o capital.

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A Nova Ordem Mundial

Os liberais conservadores, que já têm o capital financeiro e a indústria bélica, já se preparam para o acirramento do enfrentamento político-econômico, criando, como sempre, as condições para um novo crescimento do fascismo, como suporte e proteção dos seus interesses em período de mais fragilidade.

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A destruição e reconstrução de países virou um grande investimento no mercado de derivativos, indexados por setores ligados a serviços e produtos de alta tecnologia. O sentimento nacionalista baseado no conceito de território está se fragmentando na África e no Oriente Médio. Quem sustenta a unidade destas nações são a religião e a etnia. Uma nova ordem mundial está sendo criada a partir da lógica dos oligopólios.

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Há cerca de vinte vezes o PIB mundial acumulado nas mãos de alguns bilionários. Com um quarto desta quantia poderíamos acabar com o desemprego, a miséria, a fome, muitas doenças e as guerras, em todo o planeta.

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Os partidos políticos e o movimento popular no Brasil

Existem menos que oito linhas de pensamento no mundo na atualidade.  Do ponto de vista político existem as grandes linhas político-partidárias: fascismo, liberalismo, social-liberalismo, socialdemocracia, socialismo (forma que pode variar da socialdemocracia ou comunismo) e comunismo. Também existem pequenas variações que representam grupos específicos: democracia-cristã, bolivarista, monárquico, centenário (herança aristocrática turca), sionistas (de direita e de esquerda) etc.

Uma sociedade politicamente evoluída tem partidos representativos das grandes linhas político-partidárias. No Brasil há cerca de trinta partidos registrados, o que caracteriza um verdadeiro balcão de negócios e não um sistema representativo de ideias. Nos EUA só há liberalismo: os democratas e republicanos. É um país economicamente rico com uma representação política pobre. E alguns corruptos também se transformaram em presidentes ou elegeram presidentes que os representaram. Os Kennedy, por exemplo, eram contrabandistas de bebidas durante o período da lei seca e seu filho John foi morto pelos seus próprios aliados mafiosos. Vale lembrar que Las Vegas era uma terra de bandidos que foi legalizada. Na vida real, no velho-oeste americano, quem perdeu foi o xerife. Os bandidos se tornaram braços do poder através de uma grande negociação. É uma ingenuidade imaginar que há uma democracia moderna por lá. Ao imitá-los criaremos nossos “Charlie Waterfall” (Carlinhos Cachoeira), enriquecendo com contravenções legitimadas e financiando campanhas.

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O que atualmente no ocidente se denomina de democracia é o resultado da disputa da revolução francesa. Ela foi democrática para a classe social que estava ascendendo ao poder, subjugando a aristocracia. Atualmente ela está ultrapassada. Ainda temos muito a evoluir na construção de uma nova democracia para um futuro melhor para todos.

Devemos tentar aproveitar as oportunidades que o movimento popular oferece. Estamos vendo no Brasil que a hegemonia socialdemocrata aliada aos tradicionais corruptos (e aí não se entenda apenas como ladrões) está sufocando várias instituições que deveriam funcionar com alternativas de poder para a sociedade. Nenhuma grande hegemonia é saudável, mesmo aquelas que defendem os interesses que achamos mais legítimos. Há sempre que existir uma contraposição. Senão é a morte da política.

E no Brasil não há contraposição que se possa considerar legítima. A única contraposição que existe é a do liberalismo, que recentemente se apresentou com o nome neoliberalismo.  Enriqueceram mais ainda os ricos e empobreceram mais ainda os pobres. Seus aliados internacionais geraram a última grande crise mundial. Agora estão tentando retornar ao poder. O que há de novidade no Brasil é a lamentável formação de uma nova extrema-direita, que é diferente daquela hitleriana ou europeia. Ela tenta ser simpática, é fundamentalista e às vezes se traveste de ecológica. Ainda não tem uma grande força política, mas já é bastante atuante.

Felizmente todo organismo vivo cria anticorpos para sua sobrevivência.

Estamos diante de um movimento popular, de certa forma, espontâneo. Devemos estar atentos e participativos. Este ainda é um movimento de descontentamento. E em um movimento de descontentes nem todos estão querendo construir a mesma proposta. Há reivindicações de interesse popular e outras não. Ferem os seus próprios interesses.

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Os partidos de oposição vão dizer que este movimento é de descontentamento contra a política do governo federal. O governo federal vai tentar tratar o movimento como democrático, tentar dilui-lo dentro da sua linha política, pois ano que vem é ano de eleição. O prefeito Haddad, de São Paulo, que no começo estava marrento e intransigente, teve que ceder, a pedido do Lula.

Os militantes partidários se infiltraram no movimento e foram chamados de oportunistas. A extrema-direita militarizada, em geral, envia seus militantes para insuflar o quebra-quebra, e agora o crime desorganizado também.

Ulisses Guimarães dizia que o que os políticos mais temiam era o povo nas ruas. E este temor fez com que PT, através do Haddad, e o PSDB, através do Alckmin, tentassem caracterizar o movimento, como um todo, de vandalismo para reprimir com rigor. Agora todos estão “simpáticos”, mas continuam terroristas. Anunciaram que cortarão investimentos, inclusive na educação e saúde. Uma grande mentira para assustar a população que desconhece que as verbas destinadas à educação e saúde não podem ser destinadas para outros fins.

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A pauta oficial do movimento é pequena, pois nasceu do Movimento Passe Livre (MPL). Com as vitórias conquistadas, a tendência do movimento iniciado pelo MPL tenderá a diminuir. As faixas contra a corrupção, por mais investimentos (na saúde, educação e transportes), por exemplo, fazem parte de outra pauta mais ampla que ainda não tem um movimento capaz de dar resposta. Mas pode ser organizado.

Este movimento que estamos vendo, com todos os seus erros e acertos é a demonstração clara de que as coisas só mudam com PENSAMENTO e AÇÃO.

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Aprendendo com a história

Vozativa edição 110 – 02 de março de 2005

Quem milita politicamente sabe que muitas tendências disputam entre si os espaços para tentar implementar suas propostas. Isto é natural e não é exclusividade da esquerda ou da direita. Durante muitos anos, estas tendências de esquerda disputaram sindicatos, associações e outras entidades populares. Até aí nada de mau. Muito pelo contrário, esta é a disputa democrática.

O problema surge quando a esquerda ascende ao poder. As tendências se conhecem muito bem, e por muitas vezes, a corrente hegemônica, teme perder espaço e aí comete o erro que a devora. Acaba fazendo alianças com setores mais à direita para garantir que tendências menores de esquerda não a ameacem. Há partidos de esquerda que incentivam a migração de antigos inimigos para dentro das suas fileiras só para garantir votos no parlamento. Ingênua ilusão.

Segundo Darcy Ribeiro, que viveu no Peru esta experiência, as alianças políticas e administrativas que o governo fez, isolaram vários setores de esquerda para garantir uma pretensa governabilidade. O governo acabou realizando uma aliança social-liberal descaracterizando suas próprias propostas de um governo popular e democrático. Também não garantiu no parlamento que as propostas do governo fossem aprovadas pelo fato de existir tal aliança, pois como em quase todos os parlamentos do mundo, o lema que prevalece é o do antigo deputado Robertão (PFL): é dando que se recebe. Para o governo passar uma proposta tem que liberar alguma verba ou aprovar algum projeto de interesse particular.

Os setores liberais, logo que se fortaleceram novamente, graças à ajuda do governo, racharam e passaram a atacar o próprio governo. O desgaste foi tão grande que nas eleições seguintes quem ganhou foram os liberais que radicalizaram para a direita. Daí em diante foram vários governos fascistas, corruptos e anti-sociais, como no período Fujimori.

O mesmo aconteceu na Nicarágua com a Frente Sandinista. Os irmãos Ortega, líderes da corrente hegemônica da Frente, também fizeram alianças com os antigos setores liberais e acabaram por descaracterizar e desmantelar todo um projeto construído na luta, por anos, para criação de um governo popular e democrático. Perderam “feio” as eleições e até agora não conseguiram articular alguma oposição aos liberais.

Temos que estar de olho no futuro, aprendendo com os erros cometidos no passado.

No Brasil, há poucos dias saiu uma charge na imprensa sinalizando que de agora em diante a Câmara dos Deputados dará o tom da política com a antiga marchinha de carnaval, que também inspirou a política Robertão: “Mamãe eu clero, mamãe eu clero mamar …”.

Macunaíma

Uma parte muito interessante da obra Macunaíma, de Mário de Andrade, é o momento em que ele tem que comer a própria carne para sobreviver. O diálogo entre Macunaíma e um pedaço da sua perna é muito engraçado.

Depois da eleição do Severino Cavalcante, a oposição e os vários “aliados” do governo resolveram atacar a Medida Provisória 232. Defensores exclusivos, dentro e fora do governo, dos interesses da burguesia nacional, já bradaram: “se o governo quer dinheiro, que gaste menos”. Ou seja, cortar gastos, e assim como Macunaíma, que coma a própria carne para sobreviver.

A carne somos nós, funcionários públicos e os investimentos sociais. Se alguém sonhava com reajuste espontâneo é bom se preparar para brigar por ele. Os movimentos sociais também vão ter que lutar para disputar cada centavo. A Reforma Agrária, fundamental para solucionar muitos problemas sociais (pois não atinge apenas aos sem-terra) ficará prejudicada, tornando possível a volta da radicalização no campo.

A transposição do Rio São Francisco está garantida. Vai beneficiar algumas cidades e a monocultura de frutas para exportação. A água não chegará ao semi-árido. Lá, os sem-terra, sem-luz, sem-água e sem-dignidade também terão que comer a própria carne para sobreviver.

O preço do terno do Lula

Vozativa edição 104 – 20 de setembro de 2004

Uma das maiores ironias políticas é você ter uma proposta que outro vem, se apropria e a leva mais adiante que você. Pior ainda quando este que leva sua proposta adiante é seu adversário. Neste caso, sua proposta, ou sua bandeira, foi roubada. Pode ser que você tenha elaborado mal a sua proposta ou talvez você não consiga levar adiante a sua bandeira. Sempre há muito a aprender. O melhor é vestir as sandálias da humildade, reconhecer os méritos de quem conseguiu concretizar a proposta, fazer autocrítica, enfim… repensar.

O Brasil sempre enfrentou problemas econômicos. Dizem que um ano após os portugueses chegarem ao Brasil, a crise econômica já estava instalada, mas um economista da corte sossegou a todos dizendo que era passageira e que ele tinha um plano para acabar com ela…

Ao longo da história capitalista brasileira, a elite dominante tentou hipocritamente acabar com a inflação e não conseguiu. Falo hipocritamente, pois a inflação sempre foi utilizada para roubar os mais desprotegidos. Esta conversa de que a inflação corrói os salários é meia verdade.

A inflação retira poder de compra dos salários dos desprotegidos em favor da elite e suas empresas.

Nenhum plano feito pela elite deu resultado, é claro. Todo mundo lembra dos planos que duravam um ano, o suficiente para se ganhar uma eleição. A propaganda da elite ameaçava a população com uma esquerda que não saberia administrar a economia, levando o país ao caos e a anarquia. Então seríamos dominados pelos soviéticos ou cubanos (sem direito à salsa ou charutos). Passada a eleição, a crise voltava e a inflação cumpria seu papel.

É impossível não reconhecer que foi exatamente um governo de esquerda que conseguiu dominar a inflação de tal forma que, pela primeira vez na história recente, o Brasil está começando a crescer de forma sustentável.

O Brasil lançou-se aos negócios internacionais sem subserviência, tendo aumentado de forma extraordinária as suas exportações, capitalizando o país. Graças a estas capitalizações o Brasil vem pagando a dívida externa sem pedir mais emprestado, o que coloca o Brasil em uma posição mais favorável para impedir ingerências do FMI. Vale lembrar que o Brasil optou, desde o início da ditadura militar por tentar crescer se endividando.

Ou seja, pegava dinheiro para tentar fazer algum negócio lucrativo e devolver o emprestado.

Só que o Brasil nunca fez estes negócios lucrativos. É difícil fazer negócios com quem empresta dinheiro para você. Quem afirmou isto, há poucos dias,  foi o senador Delfin Neto, fazendo autocrítica durante uma sessão com o Ministro Guido Mantega, transmitida pela TV Senado.

O governo atual optou por pagar a dívida, não pedir mais dinheiro emprestado e aumentar suas parcerias comerciais.

Neste sentido nunca houve um presidente que tivesse tanta credibilidade quanto  o Lula, assim como o reconhecimento nacional e internacional como bom negociador.

Os setores que hoje estão na oposição e que sempre representaram a elite brasileira, estão se sentindo despersonalizados. Afinal o governo dominou a inflação, está fazendo o país crescer, a atividade industrial vem crescendo, mais de um milhão de empregos foram criados recentemente.

Ou seja, a direita ficou sem bandeiras. Em algumas votações, a direita tentou passar a ilusão de que é a favor de um salário mínimo maior, de maiores benefícios para os aposentados. Acabaram ficando com a mesma falta de credibilidade de quando eram governantes e nada faziam.

Não haverá mais eleições onde promessas românticas ou mal intencionadas venham convencer uma população ingênua. O atual governo está vendo que não era tão fácil assim modificar um país tão complexo como o Brasil. Mas também está mostrando que, com vontade política, poderemos transferir de volta, da elite e de suas empresas, o que foi retirado ao longo de todos estes anos dos salários dos mais desprotegidos.

Nestes períodos de falta de identidade, a oposição e parte da imprensa que a apóia, têm que se dedicar à baixa política, tentando focar  assuntos irrelevantes e muitas vezes preconceituosos.

Não havendo política para se contrapor, resta apenas à oposição  discutir qual o carro do Lula, se ele fuma charutos, se bebe vinhos franceses e assim por diante. É o jeito…

O primeiro ano de governo

Vozativa edição 96 – 09 de janeiro de 2004

Gostaria de dividir com os demais colegas, esta pequena análise do governo Lula, que com apenas um ano de existência, conseguiu significativas vitórias na política e na economia, que nunca haviam sido alcançados pelos governos anteriores. Se há críticas a este governo, estas não são as que a oposição recita.

Há alguns anos atrás nenhum analista político tinha outro discurso senão o de que o Lula só chegaria ao poder se fizesse uma aliança de centro-esquerda. Todos sempre o criticaram por não ter feito as alianças necessárias para ganhar uma eleição e iniciar, no Brasil, um governo de tendências de esquerda. A crítica estava certa, Lula fez uma aliança de centro-esquerda e venceu as eleições.

Administrar esta frente não será tarefa fácil, mas temos o exemplo do Itamar que conseguiu bons resultados na sua composição de centro-direita. O importante para a sobrevivência de governos de composição é criar no centro com vieses para a direita ou esquerda.

No Brasil, todos os governos de esquerda que tentaram fazer rupturas, sem bases sólidas para dar continuidade aos seus projetos, acabaram derrotados pela reação da direita. O presidente da Venezuela, Hugo Chavez, cometeu o mesmo erro e agora está numa situação difícil.

Nas composições de direita, as ações da burguesia (banqueiros, industriais, latifundiários etc) são as que determinam o viés [tendência] para a direita. Para isto montam seus lobbies, criam seus fatos políticos e enfrentam seus desafios para o avanço da direita.

Nos casos das composições de  centro-esquerda, as ações dos trabalhadores é que vão determinar o viés para a esquerda.

Os trabalhadores necessitam criar instituições que lhes garantam poder nas disputas naturais dos interesses de classe.

Como diz o próprio Lula: “ninguém respeita que senta numa mesa de negociação com a cabeça baixa…”. O desafio dos trabalhadores neste governo  é ocupar espaços (que sempre foram preenchidos pela burguesia) com a decisão de quem quer ocupar o poder.

“As previsões terroristas na época da campanha escondiam a incapacidade do PSDB e do PFL em terem uma análise política correta. Atualmente os dois partidos perambulam como zumbis esperneantes , sem identidade, e sem ter a que se opor. “

Lula não vai conseguir

Durante a campanha eleitoral, a possível vitória de Lula foi prenunciada com os piores presságios possíveis. Naquela época, o medo e o caos seriam os ingredientes do caldeirão do inferno esquentados pelo inexperiente Lula. Após um ano de governo, a história que se revela é outra bem diferente.

Lula, a quem Collor, Serra, Maluf e outros guardiões da burguesia diziam não ter condições para interlocução com representantes internacionais, tornou-se uma figura internacional, apontada como paradigma democrático. Lula foi convidados pelos mais poderosos chefes de estado para visitar seus países, estabelecer boas intenções diplomáticas, ou no mínimo, para tirarem fotografia ao seu lado. Quando o FHC elegeu-se presidente, fez uma longa viagem pelo mundo e não foi recebido por nenhum chefe-de-estado.

Lula, do ponto de vista internacional, já elevou a auto-estima do brasileiro. Com a brilhante ajuda de Celso Amorim, Lula conseguiu colocar o Brasil no mapa.

Caos econômico

Pela primeira vez, estamos vendo o Brasil de cabeça em pé, sendo respeitado pela comunidade internacional.

Também, segundo a previsão dos liberais no período eleitoral, a economia iria ao caos, em direção a situação político-econômica da Argentina.

No final de 2003, a inflação encontra-se controlada, o Risco País caiu de 3.000 pontos para menos de 500, assim como as nossas exportações bateram recordes históricos. Isto tudo com o orçamento feito no governo passado e com as suas mórbidas heranças.

O desempenho do governo neste primeiro ano já superou os objetivos de equilíbrio econômico tentados durante os oito anos do governo anterior. O Brasil está para se tornar um modelo de desenvolvimento para o mundo.

Este desenvolvimento será bastante facilitado se conseguirmos formar parcerias comerciais com a Rússia, Índia e China que também são países populosos, em desenvolvimento e complementares comercialmente em vários segmentos da economia.

Os limites do poder

Uma das coisas mais comuns é a sensação, após uma vitória eleitoral, de que se conseguiu chegar ao poder. Ledo engano.

No dia seguinte à posse, o ocupante do cargo percebe que o poder é efêmero e que não se subordina aos seus projetos políticos só porque ele se elegeu.

Veja em que situação o governo fica, na questão agrícola.

Quando uma industria cresce 1,5% ao ano, solta rojões e espoca champanha. A agricultura no Brasil cresce 4,5% ao ano.

Ou seja, é o setor que mais cresce, propiciando superávits comerciais, gerando empregos e também alavancando parte da indústria e do comércio.

Então o governo deve incentivar o setor a produzir cada vez mais (porque há espaço para isto) e exportar. E é o que ele está fazendo.

Mas há um problema. Quem são os produtores? Os ruralistas, que são inimigos dos Sem-Terra. Os Sem-Terra sempre tiveram o Lula como aliado.

Lula, que disputou espaços políticos com os ruralistas, agora os têm como parceiros comerciais. Ou seja, é uma equação política, que precisa de um malabarista para administra-la, já que não dá para resolve-la.

Neoliberalismo quase acaba com o Brasil

No final das contas, o ano de 2003 foi bastante importante para o governo, pois criou as condições necessárias para tirar o Brasil da estagnação econômica que tendia para o aumento da miséria. Além do mais, os neoliberais estavam entregando o país através de uma política de privatização (lembram?), que só deu em mais miséria e desemprego. Nunca os trabalhadores ficaram tão vulneráveis quanto no período neoliberal.

O neoliberalismo começou a se consolidar a partir do governo Collor, há mais de dez anos atrás. Até a vitória de Lula, os neoliberais conseguiram desmantelar o Estado e ocupar importantes espaços no poder. Acabar com o neoliberalismo não será uma tarefa fácil para o governo, que se viu obrigado a compor com alguns dos seus segmentos para poder consolidar a aliança de centro-esquerda que viabilizou a vitória de Lula.

Combater as práticas ruins

Mas também devemos ter capacidade crítica para combater algumas práticas ruins. Estas práticas foram consolidadas ao longo de muitos anos e ainda correm com certa fluidez nas veias da administração pública, por exemplo.

Pudemos ver claramente os casos da FUNASA e do INCA, onde várias nomeações foram contestadas, inclusive por ação de militantes do próprio PT, e revistas por parte do Ministério da Saúde. Uma vitória localizada que permite mostrar que combater as práticas ruins dentro do governo, ajuda o próprio governo.

Feliz 2004 

Lula não é o pai de todos, como Getúlio Vargas. Ele não governará por nós, como dizem e querem os demagogos. O brasileiro precisa abandonar um antigo mito de esperar sempre por um salvador da pátria (“uma herança do período escravista”, como diria Jacob Gorender).

A vitória do Lula não é apenas do Lula. Sua ascensão ao poder é o resultado de uma luta  que começou há mais de cem anos com os anarquistas e socialistas. O governo Lula é uma importante etapa histórica desta luta, mas sem o empurrão dos trabalhadores esta roda não vai girar. Se este governo não der certo, o próximo será de direita.  Precisamos ser impetuosos e determinados.

Desejo a todos um feliz 2004, com muita saúde, paz e correção da diferença de vencimento. Vamos à luta.

Encarcerar e executar

Vozativa edição 31 – 27 de novembro de 2001

Durante o mês de novembro o presidente Bush baixou um decreto que permite aos americanos criar tribunais militares para julgamento de estrangeiros acusados de terrorismo dentro ou fora do território americano. Quem tem o direito de determinar quem é, ou não, suspeito de terrorismo é o próprio presidente. Ou seja, o presidente americano proclamou ao mundo que pode entrar em qualquer país, prender quem ele quiser, julga-lo e puni-lo (com pena de morte, inclusive).

Tem um detalhe: o preso não poderá recorrer a nenhuma instância da Justiça regulamentar, assim como poderão ser omitidos trechos do processo que os americanos considerem sigilosos, tanto para o réu quanto para os seus advogados.

Muitos americanos também estão indignados com o decreto. A OAB recebeu da American Bar Association (a OAB deles), pedido de apoio para barrar este ato, que eles mesmos consideram semelhante ao elenco de critérios utilizados na época da Inquisição.

E como fica o Direito Internacional ?